Amor - Livro A Cama na Varanda

Resumo do 2º Capítulo – Amor – Livro A Cama na Varanda

O amor cortês foi a primeira manifestação do amor como hoje o conhecemos, uma relação pessoal. Do amor fazem parte aventura e liberdade. Por ser um dom livre, não cabia no casamento, que era um contrato comercial sem espaço para considerações pessoais. Era consenso no século XII que no casamento poderia haver estima, mas nunca amor; porque o amor sensual e o desejo eram a perturbação e a desordem.

O amor cortês surgiu no regime Feudal. Era o amor entre o cavaleiro e a dama. A virtude era o atributo que isentava esse amor de toda carnalidade. Os trovadores nunca cantavam o amor consumado. A maioria rejeitava claramente todo desejo de possuir as suas damas. Exaltava o amor infeliz, eternamente insatisfeito.

Os cavaleiros eram jovens, filhos da nobreza, à maioria deles era vetada a vida conjugal e a herança. Serviam ao senhor feudal e a sua obrigação era proteger a fortaleza. Nesta época multiplicou-se o número de jovens solteiros e celibatários. Assim, o amor cortês surgiu como uma reação contra a anarquia dos costumes feudais.

O código do amor cavaleiresco foi apresentado como um dos privilégios do homem cortês. O amor delicado era um jogo educativo. Contribuía para manter a ordem, domesticando a juventude. Incentivava a repressão dos impulsos. O homem era testado para assegurar que seria capaz de sofrer por amor, e que este não tinha caráter sexual. O dever de um bom vassalo era servir.

“Servindo à sua esposa, era o amor do príncipe que os jovens queriam ganhar, esforçando-se, dobrando-se, curvando-se. Assim como sustentavam a moral do casamento, as regras do amor delicado vinham reforçar as regras da moral basáltica”.

Numa época relativamente recente, após a Revolução Francesa e a industrialização, surgiu a ideia de que o casamento deveria ser o resultado do amor romântico. Hoje, quase todas as pessoas misturam romance com sexo e casamento, como se fosse natural, sem ter ideia de que esta é uma inovação revolucionária e recente.

O principal conceito que não se modificou é a crença que o “amor verdadeiro” deve ser uma adoração religiosa mútua irresistível, que nos faça sentir que todo o céu e a terra nos são desvelados através desse amor. Mas ao contrário de nossos antepassados, tentamos trazer essa adoração para as nossas vidas pessoais, misturando-a com sexo, casamento e a rotina da vida.

Amor - Livro A Cama na Varanda

O mito do amor romântico

Apaixonar-se e amar, não são casos raros. Na nossa cultura quase todas as pessoas (principalmente as mulheres) estão aprisionadas pelo mito do amor romântico e pela ideia de que só é possível haver felicidade se existir um grande amor. Mesmo tendo vários interesses na vida e parecendo feliz, a mulher, quando está sozinha, pergunta se essa felicidade é real.

O amor romântico é construído entorno da projeção e da idealização sobre a imagem ao invés da realidade. A pessoa amada não é percebida com clareza, mas sim através de uma névoa que distorce o real. Para manter esta névoa após algum tempo de relação, as pessoas evitam qualquer intimidade real, calando-se sobre os pensamentos e sentimentos mais íntimos, como inclusive, mantendo um afastamento físico. Até há algum, pouco, tempo atrás, as mães, sabendo disso, diziam para as suas filhas que deveriam evitar qualquer tipo de intimidade física antes do casamento, pois caso contrário, o rapaz perderia o interesse por elas.

Acredita-se que o mapa amoroso é construído entre os cinco e oito anos de idade e é determinado pelos relacionamentos com a família, amigos e por experiências e oportunidades. Algumas características de temperamento das pessoas que nos rodeiam atraem ou nos perturbam. Pouco a pouco, estas memórias começam a formar um padrão mental, um modelo subliminar do que nos agrada e nos desagrada. Assim, apaixonamos-nos por uma imagem construída sobre um determinado aspeto da pessoa do qual temos uma forte necessidade.

Acreditar que o amor romântico é o amor verdadeiro gera muita infelicidade e frustração, impedindo a experiência de uma relação amorosa autêntica. Quando ocorre o desencanto, quando percebemos que o outro é um ser humano – e não a personificação das nossas fantasias, ressentimos-nos e reagimos como se tivesse ocorrido uma desgraça.

O mito do amor romântico não passa de uma mentira, porque mente sobre as mulheres, os homens e sobre o amor. Além de omitir o conflito e a discórdia, a base sobre a qual se constrói o mito é a estereotipagem sexual do homem “verdadeiro” e da mulher “verdadeira”, é uma mentira.

Invenção da maternidade

Com a industrialização, nasce o capitalismo, na segunda metade do século XVIII, e junto às fábricas formam-se aglomerados urbanos. As mulheres são incentivadas a permanecer em casa, dedicando-se ao marido e aos filhos. Acentua-se o afastamento do grupo familiar da sociedade e ocorre a formação da família nuclear. A família burguesa traz nova ideologia: o amor materno e o amor romântico.

Antes do século XVIII, o amor não era um valor familiar ou social. As relações familiares eram dominadas pelo medo.

Santo Agostinho via a criança como ser imperfeito, símbolo da força do mal, esmagada pelo peso do pecado original. A amamentação era vista como nojenta, ridícula e pecadora. As crianças (de 0 a 4 ou 5 anos) eram cuidadas e amamentadas na casa das amas de leite. As amas eram mal nutridas, sofriam de sífilis e por vezes sarnentas ou portadoras de escorbuto. Os bebés eram imobilizados por faixas sem o mínimo de higiene. A morte dos filhos não gerava sofrimento, era vista como um acidente corriqueiro.

No final do século XVIII houve uma revolução da mentalidade, onde a imagem da mãe, o seu papel e a sua importância se modificaram radicalmente. A construção do amor materno não foi motivada por uma questão humanitária, mas por razão de nova ordem económica que surgia nas sociedades industrializadas. Temendo o despovoamento, a criança adquire um novo valor por representar uma riqueza económica e garantir o poderio militar.

A mãe torna-se a grande responsável por tudo que acontece com o filho. A sua educação, o seu lazer, os estudos, a sexualidade, enfim, a sua felicidade ou desgraça (o sentimento de culpa surge com intensidade). a Sua função é ser a dona de casa dedicada e sofredora, a patroa. O pai é o único responsável pelo bem-estar material. Para que esse sistema funcione bem, é inaugurado o amor romântico.

No amor romântico, os elementos do amor sublime predominam sobre o ardor sexual. São as qualidades de caráter que distinguem uma pessoa como especial. Até há pouco tempo atrás, acrescentava-se que o casamento era para sempre. Um casamento eficaz, embora gerando muita infelicidade, era sustentado por uma divisão de trabalho entre os sexos. O marido dominava o trabalho remunerado e a mulher o trabalho doméstico. O confinamento da sexualidade feminina ao casamento era importante como símbolo da mulher respeitável. O homem, por sua vez, separava amor romântico, o conforto do ambiente doméstico e o prazer sexual, da sexualidade da amante ou prostituta.

O novo papel da mulher, a mãe idealizada, originou uma nova conceção de feminilidade. Os pilares da sua nova feminilidade são: a pureza, a piedade religiosa e a submissão.

Invenção da maternidade

Construindo a mulher feminina: A primeira coisa que se quer saber quando nasce um bebé é se é menina ou menino. O papel social que ele deverá desempenhar está claramente definido.

As meninas são mais carregadas no colo. Com os meninos os pais brincam mais violentamente, resultando em uma maior agressividade nos meninos. Os meninos não brincam com bonecas, porque isso é coisa de menina. Espera-se que as meninas sejam gentis, meigas, delicadas, fechem as pernas ao sentarem-se e não falem palavrões.

Ao contrário do homem, que é estimulado a ser independente desde quando nasce, a mulher não é criada para se defender e cuidar de si própria. Quando adolescente continua a ser treinada para a dependência, não deve sair sozinha, tem horários mais controlados. O principal objetivo continua a ser o casamento como a substituta fonte de segurança. O movimento de emancipação e as exigências práticas da vida não permitem que a mulher se esconda sob a proteção do pai ou marido. A liberdade assusta. Foi ensinada a acreditar que, por ser mulher, não é capaz de viver por conta própria, que é frágil, com necessidade de proteção.

A mulher feminina pode ser autónoma? Não. A mulher considerada feminina é uma mulher estereotipada. Autonomia implica ser ela mesma, na sua totalidade, sem negar ou repudiar aspetos da sua personalidade para se submeter às exigências sociais.

Na cultura patriarcal, a mulher feminina renuncia a partes do seu Eu, na tentativa de corresponder ao que dela se espera. O mesmo ocorre com o homem masculino. as Suas características são: força, coragem, ousadia, desafio, etc. Homens e mulheres podem ser fortes e fracos, corajosos e medrosos, agressivos e dóceis, dependendo do momento e das características que predominam em cada um, independentemente do sexo. Os conceitos de feminino e masculino são prejudiciais a ambos os sexos por potencializar as pessoas, aprisionando-as a estereótipos.

O homem deve estar sempre atento e mostrar que é homem. Deve ter atitudes, comportamentos e desejos masculinos. Qualquer variação no jeito de falar, andar ou mesmo sentir, a sua virilidade é questionada.

O menino nasce de uma mulher, que cuida dele e lhe dá carinho. Ele sente-se gratificado na condição de bebé, totalmente dependente dela. No início da vida conhece o prazer dessa dependência passiva, mas durante toda a sua existência terá que lutar contra o desejo de retornar a essa condição. Para se tornar homem é preciso diferenciar-se da mãe, reprimindo profundamente o forte vínculo, junto com o prazer da passividade. Para ser considerado masculino o menino deve rejeitar e opor-se a tudo que é feminino. O processo de construção da masculinidade implica fazer com que o menino transforme a sua primitiva identidade feminina em uma identidade masculina secundária.

Pela atividade sexual que desempenha, o homem toma consciência da sua identidade e virilidade. É considerado homem quando seu pénis fica ereto e ‘come’ uma mulher. E isso deve acontecer o mais cedo possível. De maneira explícita ou não, é pressionado pelos amigos ou pelo próprio pai.

O super-macho é um homem duro e solitário, porque não precisa de ninguém, viril a toda prova. Uma besta sexual com as mulheres, mas que não se liga a nenhuma delas. Um mutilador de afetos.

A rutura precoce do menino com a mãe na tentativa de se adequar ao modelo imposto é frustrante. Perseguir o ideal masculino gera conflitos e tensões, tornando imprescindível usar uma máscara de omnipotência e independência. Desde cedo aprende que deve rejeitar uma parte de si. O desejo de ser cuidado, acalentado, dependente é recalcado. Sentimentos de ternura, generosidade, preocupação com os outros são reprimidos para o diferenciar da mãe. Na vida adulta os homens escondem a necessidade que têm das mulheres mostrando-se auto-suficientes e desprezando-as. Convencem-se de que elas é que precisam deles, da sua proteção.

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