Ciúmes

Resumo da 2ª Parte do 3º Capítulo – Casamento – A Cama na Varanda – Ciúme, Fidelidade, Separação e O casamento é necessário

O bebé quando nasce busca paz, aconchego e proteção através do contato físico com outra pessoa, visando atenuar o desamparo. Quando fica sozinho, entra em pânico e chora até que alguém lhe dê colo. É a primeira manifestação de amor do bebé À medida que vai crescendo e ampliando seu universo, a necessidade constante da mãe vai diminuindo. Mas, mesmo assim a criança vê-se frequentemente ameaçada de perder esse amor, sem o qual perde o referencial na vida. Mostra-se controladora, possessiva e ciumenta, desejando a mãe só para si.

Quando surge uma relação amorosa, o indivíduo passa de uma dependência para outra. Agora é através da pessoa amada que tenta satisfazer todas as necessidades infantis.

Ciúme

A dependência entre um casal é encarada por todos com naturalidade, porque se confunde com o amor

O receio de ser abandonado ou trocado leva a exigir-se do parceiro que não tenha interesse, nem ache graça em nada fora da vida a dois, longe da pessoa amada. Nesse caso, o desejo de uma vida livre fica em segundo plano.

Se a dependência infantil que tinha da mãe tiver sido bem elaborada, o indivíduo provavelmente será menos ciumento. A questão do ciúme está ligada à imagem que se faz de si próprio. Não sendo boa a impressão, há sempre o temor de ser abandonado ou trocado.

Quem é amado sente-se valorizado, com mais qualidades e menos desamparado. Portanto, quanto mais intenso o sentimento de inferioridade, maior será a insegurança e mais forte o ciúme.

Fidelidade

Desde a infância, era ensinado à mulher, que ela deveria ter relações sexuais com apenas um homem. Isso fazia com que ela se sentisse culpada, ao perceber seu desejo sexual por alguém que não fosse o marido. Encontrou-se essa culpa levada ao extremo no relato de algumas mulheres com mais de 60 anos. Com a emancipação feminina as coisas começaram a mudar. A proporção de mulheres casadas há mais de cinco anos que têm encontros sexuais extraconjugais é, hoje em dia, virtualmente a mesma que a dos homens.

Quando num casamento não há dependência económica ou emocional, quando as duas pessoas se sentem livres e têm consciência de que a relação só vai existir enquanto for satisfatória do ponto de vista sexual e afetivo, um episódio extraconjugal pode ocasionar dois resultados: é apenas passageiro e não rivaliza com a relação estável, que sai até reforçada – a pessoa não se sente coagida à obrigatoriedade de ter um único parceiro – ou a nova relação se torna mais intensa e mais prazerosa que a anterior e rompe-se com a antiga.

As restrições que muitos têm o hábito de se impor por causa do outro ameaçam bem mais uma relação do que uma “infidelidade”

Reprimir os verdadeiros desejos não significa eliminá-los. O parceiro que teve excessiva consideração tende a se sentir credor de uma gratidão especial, a considerar-se vítima, a tornar-se intolerante.

As pessoas sem preconceitos e tabus sexuais sabem que a fidelidade não é natural e sim uma exigência externa. O laço conjugal, juridicamente fixado e inalterável, é, no plano biológico, uma ficção. Se os casais deixassem de associar fidelidade à sexualidade seria positivo para o casamento, na medida em que a mudança periódica de parceiros provoca, a cada vez, um aumento do desejo sexual.

Separação

Da mesma forma que a criança se desespera na ausência da mãe, o adulto quando perde o objeto amado é invadido por uma sensação de falta e de solidão. Surgem medos variados, como o de dececionar os parentes e os amigos, fazer os filhos sofrerem, ficar sozinhos, ter problemas financeiros, e o mais ameaçador: o de nunca mais ser amado. Embora o casamento não seja o único meio de atenuar o desamparo humano, é o que a sociedade mais privilegia. Quando um projeto amoroso fracassa, a pessoa perde seu referencial na vida e a pergunta que se faz sem conseguir uma resposta é: quem sou eu?

Separação

Além de todas as questões emocionais que envolvem a separação, a interferência de vínculos económicos contribui para dificultá-la. Sem dúvida, é grande o número de mulheres que se veem forçadas a permanecer casadas e com esforço cumprir as suas obrigações sexuais com o marido em troca de casa, comida e algum conforto. Não conseguem separar-se por serem dependentes.

A ideia de felicidade através do amor no casamento influi na intensidade da dor da separação. Como o amor romântico é construído em cima de projeções, o parceiro, imagina-se, preenchia uma falta. E na separação ele deixa um espaço vazio, leva com ele o que fazia parte também do outro. O cônjuge rejeitado não é o único a sofrer. A dor de desfazer a fantasia do par leva à constante tentação de restabelecer o antigo vínculo.

Como vivemos numa época, em que, cada um procura desenvolver ao máximo as suas possibilidades pessoais e a sua individualidade, a dor da separação é bem menor de que há trinta anos. Não cabe mais chorar tanto um casamento perdido porque ainda se tem a si mesmo como objeto a ser realizado e vivido. Se na relação que acabou já não havia mais desejo; se há a perspetiva de uma vida social interessante, pelo círculo de amizades; se existe liberdade sexual para novas experiências e se estar só não é sinonimo de se sentir desamparado, após uma separação o alívio é maior do que o sofrimento.

O casamento é necessário?

A vida a dois numa relação estável torna-se cada vez mais difícil de suportar diante das transformações e apelos da sociedade. Antigamente não formar um par era associado à ‘não ter uma família’, até então único meio de não se viver na mais profunda solidão. Tudo isso causava tanto medo (para muita gente ainda causa) que era preferível contentar-se com uma relação morna do que arriscar morar sozinho. Entretanto, de há algumas décadas para cá, vem diminuindo a disposição para o sacrifício.

Hoje, os que vivem só, têm respeito social e são até objeto de inveja da maioria dos casados que, por temerem novas formas de viver, suportam casamentos que lhes restringem a liberdade e lhes impõem sacrifícios.

Neste momento em que o sistema patriarcal começa a ser questionado as formas de relacionamento afetivo-sexual tradicionais abrem-se para infinitas possibilidades. Torna-se quase impossível encontrar alguém que acredite hoje em amor e casamento eternos. A tendência ao casamento monogâmico sequencial é, onde em tese, o casal viveria junto enquanto a relação fosse satisfatória para ambos. Findo esse período, cada um partiria em busca de outro parceiro.

Em vários relatos feitos por pessoas que não desejam uma relação fixa com um único parceiro, foram encontrados dois fatores comuns: a importância que dão às relações de amizade – consideram-nas as verdadeiras relações de amor – e a liberdade sexual.

Buscar atenuar o desamparo do nascimento é fundamental, mas essa busca pode se manifestar de várias formas e não apenas numa relação entre um homem e uma mulher. A amizade é a forma de se viver o amor de forma intensa. Os amigos fornecem não apenas diversão e variedade; em suas multifacetadas entradas e saídas de nossas vidas, são o campo no qual podemos dar maior expressão àquilo que somos como indivíduo.

Na nossa sociedade, é difundida a ideia de que não se pode misturar amizade e sexo. A responsável por isso é a corrente vinculação falsa entre amor romântico e sexo. Amor e sexo são impulsos totalmente independentes e pode haver prazer sexual pleno totalmente desvinculado das aspirações românticas. O sexo com amigos só vai ser frustrante e prejudicar a amizade se uma das partes tiver alguma expectativa romântica que a outra não corresponda.

Para que a forma mais tradicional e aceite de se viver o amor (a relação estável entre duas pessoas) não se torne a repetição do fracasso que assistimos hoje, é fundamental que as pessoas tenham prazer na convivência, sem que dependam umas das outras. Para que seja prazerosa, terá que garantir os direitos de cada pessoa: direito de locomoção, de opinião, de querer ficar só, de ter outros anseios sexuais, de cultivar amigos em separado, direito de falar de si e também de se calar. A possessividade e o ciúme não entram nesse tipo de vínculo, já que o motivo da relação é o prazer de estar junto.

A multiplicidade de opções da vida amorosa pode levar a escolhas difíceis de harmonizar com o social, mas nem por isso menos enriquecedoras.

“Ir para – Resumo da Primeira Parte do 4º Capítulo – Sexo – Livro A Cama na Varanda”

“Ir para – Resumo da Primeira Parte do 3º Capítulo – Casamento – Livro A Cama na Varanda”

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