contos novos

Resumo do Livro Contos Novos de Mário de Andrade

Contos Novos é uma obra publicada postumamente, composta de 9 contos vistos e revistos, alguns levaram 20 anos para serem escritos. Músico, folclorista inveterado, Mário de Andrade foi o “pai do Modernismo brasileiro”, título que abominava.

Vestida de preto

Considerado a obra-prima do autor, conta a história de Juca e Maria, ambos com cinco anos, tomados por um grande amor, desses que duram a vida inteira. Narrado em primeira pessoa, a história começa como digressão da infância, um dos temas preferidos de Mário de Andrade.

Vestida de preto

Estavam todos em casa de tia Velha, para uma festa, os primos e primas brincando nos quartos, entretidos em jogos infantis de descobertas. Maria e Juca foram sozinhos para um dos quartos e o narrador observa que a proximidade dela o fazia puro: “O que os outros faziam eu não sei. Eu, isto é, eu com Maria, não fazíamos nada.”. Mas Maria o convida para se deitar com ela numa toalha branquinha, que estendera no chão e sobre a qual colocara um travesseiro. Vira-se de costas, com os cabelos pretos, espantados sobre o travesseiro. O narrador “encanuda”os beijos e beija Maria no pescoço, furtivamente e com medo de espirrar, porque marido não espirra, ora! E anuncia feliz: “Beijei Maria, rapazes, beijei Maria!” Mas tia Velha entra e fica danada com eles. A partir desse dia, Maria deu de humilhar Juca. E assim cresceram.

Maria era namoradeira, Juca um vagabundo na escola. Ambos se hostilizavam; até que Maria casou e foi morar na Europa. Juca, um dia, quase sem querer, descobriu por que Maria o hostilizava: a mãe dela, contando que o casamento de Maria ia mal, culpou o garoto: foi por você, Juca… ela gostava tanto de você…. Juca passa a estudar, a fazer palestras, a escrever para os jornais e a freqüentar grêmios literários. E um dia, volta a prima. Pensando não encontra-la, Juca vai visita-la. Pensa em deixar o cartão, não queria ver Maria. Mas ela aparece, toda vestida de preto, soberanamente mulher. Podia fazer com ela o que quisesse. Mas só consegue pensar num verso, o de Castro Alves, quando a vê:
“Boa noite, Maria, eu vou-me embora…”

O ladrão

Os moradores de uma vila acordam , pouco depois da meia-noite, aos gritos de “pega, ladrão!”. Embora ninguém tivesse , de verdade, visto o ladrão que a todos inquieta, começa uma perseguição que só acabará já no fim da madrugada e que unirá todas as pessoas.

ladrao

As janelas se iluminam quando os irmãos Moreira se juntam a um policial na caçada ao ladrão. Com a presença de mais pessoas no grupo, os irmãos acabam sendo esquecidos e torcem para que o ladrão fuja e o grupo nada consiga. A perseguição, no entanto, continua. São três guardas agora. Entram na casa de uma mulher e assustam as crianças, uma moça aponta para o telhado, os homens atiram e as pessoas ficam em pânico.

O grupo de perseguidores agora é formado por vinte pessoas que vasculham as casas, mas nada irão encontrar. Um rapaz, de pijama, toca no violino a única coisa que sabe tocar: uma valsa. E a música toca o coração de todos. Uma mulher de má fama , casada, mas que transava com qualquer um na ausência do marido, desde o leiteiro até o entregador de jornais, acaba por se integrar ao grupo. Ela quer companhia, precisa que alguém a toque e lhe faça companhia. Aos poucos, as pessoas se afastam, e o rapaz recomeça a tocar. Todos se vão e a deixam solitária, por detrás da porta fechada.
Mas o ladrão, esse, ninguém saberá nunca se existiu. Serviu apenas, existindo ou não, para aproximar as pessoas. E o violinista solitário, fumando, de pijama, espera que alguém lhe peça para tocar outra vez a única música que sabe tocar.

Primeiro de maio

O 35 tem 20 anos e é carregador de malas da Estação da Luz; resolve comemorar o Dia do Trabalho e sai às ruas bem vestido e barbeado. Embora fosse bronco, carrega dentro de si a impressão de ser explorado como trabalhador.

1 de maio dia de trabalhador

Os amigos acham aquilo um desperdício: comemorar o quê? O certo é trabalhar e ganhar dinheiro… Mas o 35, embora não compreenda bem os fatos, sabe que deve participar. E vai. Mas nada encontra porque os lojistas , temendo a balbúrdia, acabam por fechar as lojas. O 35 descobre, então, que todos os caminhos o levam à Luz. Durante o trajeto, vê repressão. Descobre que o Governo havia proibido as passeatas e se incomoda com o fato do Governo ter mandado para a rua policiais . Ele não compreende por que um comício, uma passeata poderiam ser tão perigosos. Volta para a Estação da Luz e, solidário, ajuda, sem querer recompensa, o velho carregador 22.

Atrás da Catedral de Ruão

Este é um conto de cunho psicanalítico e assim deve ser entendido. Mademoiselle era francesa, tinha 43 anos, era virgem e tinha sonhos eróticos. Era professora de francês de Alba e Lúcia, meninas ricas de 15 e 16 anos. D. Lúcia, mãe das meninas, contratara Mademoiselle depois que elas, as meninas, haviam retornado da Europa.

Catedral de Ruão

As meninas falavam muito bem francês e costumavam usar expressões grosseiras depois da viagem, comentavam sobre sexo freqüentemente. A professora, externamente, era pura como um anjo, com suas blusinhas engomadas e de golas altas, abotoadas em rendas. Mas, como observa o narrador, “estava no cio” e se perturbara com uma história contada pelas meninas, uma coisa que acontecera “atrás da Catedral de Ruão” e que não as deixara terminar dizendo saber muito bem o que acontecia nas catedrais.

A professora ficara impressionada com o que as meninas começaram: havia um homem lá, atras da catedral… e daquele dia em diante, inconscientemente, passa a querer estar, à noite, atrás das catedrais. E imagina o que lhe possa acontecer: violência, homem que rasgue suas roupas e se deite sobre ela. Quando tinha essas imaginações, o nariz escorria-lhe, espirrava, precisava de um lencinho.

Uma noite, a professora saiu mais tarde da casa das meninas e quando deu por si, estava atrás da catedral de Santa Cecília. Tem, então, imaginações porque dois homens vão atrás dela, conversando um com o outro. Apressa o passo para chegar à pensão onde morava, imagina que os dois vão agarra-la, forçá-la, exigir sexo à força. Mas nada acontece. Então, quase chorando, oferece-lhes um níquel e, soluçando, agradece:
– Mer-ci pour votre boo-nne com-pa-gnie!
Subiu as escadas correndo e foi para o quarto chorar…

O poço

Joaquim Prestes tem 75 anos e é um homem duro; é fazendeiro na região de Mogi e lá havia introduzido a criação de abelhas africanas e por lá havia aparecido com o primeiro carro.

poço

Tinha mandado abrir um poço, julgando caro demais colocar água encanada por ali, no pesqueiro. E lá vinha ele ao pesqueiro, naquele dia de frio terrível, conferir o trabalho dos homens que contratara. Encontrando-os parados ele se enfurece e quer saber o motivo por que estão ali, sem fazer nada.

José e Albino são os irmãos que para ele trabalham; Albino tem os peitos fracos, está com uma tosse horrível e tem cãibras nas pernas quando desce ao fundo. Além disso, o poço, por causa das chuvas recentes, está desbarrancando. Dizem que não podem continuar o trabalho. Mas Joaquim Prestes acha uma estratégia para faze-los trabalhar: debruça-se sobre a borda do poço e deixa cair lá uma caneta . Exige que eles a tirem de lá. Os homens descem outra vez , cavando e trazendo o barro para cima. No dia seguinte, vão levar ao patrão a caneta encontrada. Mas Joaquim Prestes, achando que eles a arranharam, joga-a no lixo e abre uma outra caixa, cheia de lapiseiras e canetas. Uma delas era de ouro.

O peru de Natal

O pai de Juca havia morrido há cinco meses e Juca resolve comemorar o Natal com a família. Um Natal que nunca tiveram antes, porque lhes sobrava nada nas festas. O pai dava para os outros, nunca para eles.

peru de natal

A mãe chora ao saber que o filho queria comemorar o Natal, sendo a morte do pai tão recente. Mas Juca a convence: um peru, duas farofas e um arroz branquinho, uma cerveja… E a família aceita. Juca sempre ficara impressionado com o fato da mãe nunca ter comido decentemente o peru de Natal, contentando-se com o resto, no dia seguinte, do que se agarrava aos ossos do bicho: carne escura e pouca.

No dia do Natal, Juca pede a ela que fatie o peito do peru e faz um prato enorme. A mãe o recrimina, sem saber que era para ela que Juca colocava o prato. Comeu , fartou-se. O narrador anuncia que Juca tivera medo da mãe explodir de tanto comer. Falam do pai, choram, mas Juca percebe que ele vai ficando distante como uma estrelinha no céu. Celebraram o pai, a morte dele e o “comeram”, fizeram , juntos, que desaparecesse aquele ser de “um bom errado”.

Frederico Paciência

Juca, o narrador do conto, tem por volta de 13 anos quando conhece Frederico Paciência no colégio: Frederico tem 14 anos, é forte e musculoso, boca grande, inteligente, era o ídolo dos meninos, amigo de todos.

Frederico Paciência

Juca, no entanto, consegue se aproximar dele e tornar-se o amigo inseparável. Os meninos se vingam: os dois são unidos demais… Passeiam juntos, estudam juntos, fazem caminhadas pela Serra da Cantareira. Frederico, certa vez, o beija com tanto furor que acaba assustando Juca.

O narrador revela-se desconfortável ao narrar que os dois se querem bem demais. O amigo partirá para o Rio de Janeiro, onde fará Medicina. Juca se entristece e sente, ao mesmo tempo, uma espécie de alívio. Morta a mãe de Frederico, este o chama do Rio. Juca escreve ao amigo e vê que, aos poucos, vão se afastando. Para alívio do narrador que agora só quer as moças….

Nélson

Nélson é um conto cheio de enigmas: um homem está num bar onde bebe seu chope escuro. Amigos reunidos ao redor de uma mesa sussurram sobre ele: por que teria aquele braço assim, repuxado, como se tivesse perdido parte da pele?

coluna prestes nelson

A garçonete fala, aos pedaços, a história do homem: tinha uma fazenda no Mato-Grosso e trouxera do Paraguai uma mulher.
Fizera parte da Coluna Prestes… A paraguaia o amava, mas depois, por conta das raivas que sentia , ainda, da história da Guerra do Paraguai, acabara por odiar também Nélson, picando, com uma tesourinha, todos os presentes que ele lhe dava. Diva, a garçonete, conta que o braço dele ficara daquele jeito porque tivera que se abrigar sob um atracadouro, enquanto a fazenda era invadida por inimigos que o caçavam. E que as piranhas haviam comido parte do seu braço.

Incomodado pelos rapazes que especulavam sobre a sua vida, Nélson sai e vai para casa. Olha para os lados antes de enfiar a chave na fechadura. Na parede interna, notícias de jornal pregadas na parede…

Tempo de camisolinha

Olhando para uma foto, Juca, narrador em primeira pessoa, lembra-se do tempo de criança. Aos três anos, ainda usando camisolinha e com os cabelos compridos por promessa da mãe, Juca vai para Santos com a família. A mãe precisava de descanso, estava muito doente depois do parto do último irmão.

Tempo de camisolinha

Junto com a família, vai a imagem de Nossa Senhora do Carmo, a madrinha do menino, posta na sala de visitas da casa da praia. Juca tem os cabelos cortados por vontade do pai, mas não quer ser moço, não quer ser velho. Cortar os cabelos é ritual de passagem e Juca se vinga do fato de estar ficando “mocinho”, mostrando o pênis para a “madrinha”, enquanto levantava a camisolinha: “Tó! Que eu dizia, olhe! Olhe bem! Tó!”
Mas o menino vai, aos poucos, encontrando sozinho os caminhos da praia, afastando-se da segurança, parte do ritual da passagem. E na praia ganha, de uns pescadores, três estrelas-do-mar. Junto com elas, a recomendação de que “davam sorte”. E sorte era tudo o que ele queria…
Nas suas andanças, encontra um português na praia. Triste, ele se queixa da falta de sorte. E o ritual de passagem se completa: Juca pega a estrela maior, a que mais sorte lhe daria, e chorando, vai ao encontro do homem. O operário olha-o surpreso, sem compreender o que aquele menino estava entregando, aos soluços. Tinha-se completado, então, o ritual do crescimento, da compreensão da existência e do sofrimento dos outros.

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